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quinta-feira, 26 de março de 2009

Ao som da lira

O aprazível clima que me foi trazido pela chuva me desperta no tato e no olfato aquele ambiente agradável, onde temos de nos abraçar a alguém para nos ser saciada a fome do calor.

Nós, estirados no sofá-cama, esparramados de muita massa italiana, azeite, amor e beijos. Durmo nos braços dela, ou ela nos meus, afinal revezávamos. Vejo que seus olhos estão fechados, talvez se questionando no íntimo, no escuro, se tudo isso lhe é real, ou se uma hora as cortinas irão fechar-se e o palhaço rir-lhe da cara. Rugas de preocupação se lhe surgem no rosto. Discreta e suavemente, verto-lhe um delicioso e sincero beijo na testa, com medieval cautela. A diáfana cortina dos seus olhos me é descoberta acompanhada melodiosamente por um sorriso daqueles que só aparecem quando a felicidade é tão grande que precisa extravasar.

Ah, aquelas noites, só nós, e isso bastava. Esperávamos o nada acontecer, e este, complacentemente, não aparecia. Assim se prolongavam os minutos, intermináveis, pelo menos enquanto pudesse me encasular naqueles braços. E o sono? Ah, este havia sido deixado para trás junto à tristeza e à solidão, que insistiam em me abusar o relógio.

Docemente, espreguiçávamos, já que todos os músculos estavam a bocejar - menos um, que palpitava como uma frenética maria-fumaça. A televisão estava ligada? E as palavras... flutuavam, contorciam-se, rodopiavam, escondiam-se. E então se tem um fenômeno. É como se houvesse uma constante universal acoplada à equação de atração dos corpos. Uma constante completamente abstrusa ao nosso olhar cientificista. Não se a vê, mas se a sente, sabe-se que existe. Tudo parece gravitar em torno dos dois corpos que, inexplicavelmente, aproximam-se com voluptuosidade. É tal o enlevo que transcende o real, o paupável; fecham-se, pois, os olhos, que são contaminados pela realidade e entravam a imaginação. Daí as cores e as formas têm suas rédeas desintegradas. No momento do enlace dos lábios, quando finalmente podemos sentir de perto toda a atmosfera viciante, parecemos acordar do morto mundo em que vivemos; encaixota-se e despacha-se o pensar e descobre-se o sentir, como quem abre os olhos para a verdadeira felicidade.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. vi o blog no teu nick, e vim dar uma olhada,
    abraço

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